Por que crianças mais velhas raramente são adotadas e como o apadrinhamento ajuda

Por Equipe CEVAM · 29 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

A maior parte das pessoas habilitadas para adotar no Brasil procura crianças pequenas. Enquanto isso, quem está esperando nas instituições são, em boa parte, crianças maiores, adolescentes e grupos de irmãos. O apadrinhamento afetivo existe justamente para eles.

O desencontro da adoção

Os dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça, mostram há anos o mesmo cenário: há mais pretendentes habilitados do que crianças disponíveis para adoção, e mesmo assim muitas crianças seguem esperando.

A explicação está no perfil. A maioria dos pretendentes quer bebês ou crianças pequenas, de preferência sem irmãos. A maioria das crianças disponíveis já passou dessa idade, ou tem irmãos que a Justiça procura manter juntos.

Ninguém precisa ser julgado por desejar um bebê. Mas o resultado é que, quanto mais a criança cresce, menores ficam as chances de ela ser adotada.

O que acontece com quem não é adotado

Uma criança que chega ao acolhimento aos 7 ou 8 anos pode passar ali a infância inteira e a adolescência. Ela muda de escola, vê educadores saírem, vê outras crianças chegarem e irem embora. Algumas voltam para a família de origem. Outras, não.

Aos 18 anos, chega o desligamento. O jovem precisa deixar a instituição e começar a vida adulta, muitas vezes sem casa para onde ir, sem alguém para pedir conselho sobre o primeiro emprego e sem um lugar para passar o Natal.

É uma transição dura para qualquer pessoa. Para quem não tem rede de apoio, é ainda mais.

Onde o apadrinhamento entra

A lei reconhece esse problema. O artigo 19-B do ECA diz que os programas de apadrinhamento devem dar prioridade a crianças e adolescentes com remota possibilidade de voltar para a família ou de serem adotados. No Programa Com Viver, o perfil vai dos 4 aos 18 anos incompletos.

Para uma criança mais velha ou um adolescente, o padrinho pode ser:

  • uma referência de vida familiar fora da instituição: como se organiza uma casa, como se resolvem conflitos, como é um domingo comum;
  • alguém que acompanha a escola e incentiva a continuar estudando;
  • um conselheiro para o futuro: que curso fazer, como montar um currículo, como se portar numa entrevista;
  • um vínculo que pode continuar depois dos 18, quando a instituição deixa de ser a casa.

Não é exagero dizer que, para muitos desses jovens, o padrinho é a relação adulta mais estável que eles vão ter.

"Mas adolescente não é mais difícil?"

Às vezes, sim. Adolescentes testam limites, desconfiam, demoram para se abrir, como qualquer adolescente. Com quem já foi decepcionado por adultos, essa desconfiança costuma ser maior.

O que ajuda:

  • Não esperar gratidão imediata. Ela pode vir, mas não é a medida do sucesso.
  • Tratar como alguém quase adulto: perguntar a opinião, envolver nas decisões dos passeios, respeitar os gostos.
  • Ser constante. Para um adolescente, aparecer quando combinou vale mais do que qualquer conversa.
  • Contar com a equipe técnica. As psicólogas e assistentes sociais do CEVAM acompanham o apadrinhamento justamente para esses momentos.

E há um lado que pouca gente conta: com adolescentes, as conversas são outras. Dá para falar de profissão, de música, de planos. Muitos padrinhos dizem que é justamente aí que o vínculo fica mais forte.

Pensando em apadrinhar? Veja os requisitos explicados e o passo a passo para se inscrever no Programa Com Viver.