Por que crianças mais velhas raramente são adotadas e como o apadrinhamento ajuda
A maior parte das pessoas habilitadas para adotar no Brasil procura crianças pequenas. Enquanto isso, quem está esperando nas instituições são, em boa parte, crianças maiores, adolescentes e grupos de irmãos. O apadrinhamento afetivo existe justamente para eles.
O desencontro da adoção
Os dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça, mostram há anos o mesmo cenário: há mais pretendentes habilitados do que crianças disponíveis para adoção, e mesmo assim muitas crianças seguem esperando.
A explicação está no perfil. A maioria dos pretendentes quer bebês ou crianças pequenas, de preferência sem irmãos. A maioria das crianças disponíveis já passou dessa idade, ou tem irmãos que a Justiça procura manter juntos.
Ninguém precisa ser julgado por desejar um bebê. Mas o resultado é que, quanto mais a criança cresce, menores ficam as chances de ela ser adotada.
O que acontece com quem não é adotado
Uma criança que chega ao acolhimento aos 7 ou 8 anos pode passar ali a infância inteira e a adolescência. Ela muda de escola, vê educadores saírem, vê outras crianças chegarem e irem embora. Algumas voltam para a família de origem. Outras, não.
Aos 18 anos, chega o desligamento. O jovem precisa deixar a instituição e começar a vida adulta, muitas vezes sem casa para onde ir, sem alguém para pedir conselho sobre o primeiro emprego e sem um lugar para passar o Natal.
É uma transição dura para qualquer pessoa. Para quem não tem rede de apoio, é ainda mais.
Onde o apadrinhamento entra
A lei reconhece esse problema. O artigo 19-B do ECA diz que os programas de apadrinhamento devem dar prioridade a crianças e adolescentes com remota possibilidade de voltar para a família ou de serem adotados. No Programa Com Viver, o perfil vai dos 4 aos 18 anos incompletos.
Para uma criança mais velha ou um adolescente, o padrinho pode ser:
- uma referência de vida familiar fora da instituição: como se organiza uma casa, como se resolvem conflitos, como é um domingo comum;
- alguém que acompanha a escola e incentiva a continuar estudando;
- um conselheiro para o futuro: que curso fazer, como montar um currículo, como se portar numa entrevista;
- um vínculo que pode continuar depois dos 18, quando a instituição deixa de ser a casa.
Não é exagero dizer que, para muitos desses jovens, o padrinho é a relação adulta mais estável que eles vão ter.
"Mas adolescente não é mais difícil?"
Às vezes, sim. Adolescentes testam limites, desconfiam, demoram para se abrir, como qualquer adolescente. Com quem já foi decepcionado por adultos, essa desconfiança costuma ser maior.
O que ajuda:
- Não esperar gratidão imediata. Ela pode vir, mas não é a medida do sucesso.
- Tratar como alguém quase adulto: perguntar a opinião, envolver nas decisões dos passeios, respeitar os gostos.
- Ser constante. Para um adolescente, aparecer quando combinou vale mais do que qualquer conversa.
- Contar com a equipe técnica. As psicólogas e assistentes sociais do CEVAM acompanham o apadrinhamento justamente para esses momentos.
E há um lado que pouca gente conta: com adolescentes, as conversas são outras. Dá para falar de profissão, de música, de planos. Muitos padrinhos dizem que é justamente aí que o vínculo fica mais forte.